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Velha questão

Luis Fernando Verissimo

Pedro, o literalmente grande (ele tinha mais de dois metros de altura), queria viajar incógnito para misturar-se com outros povos e saber como era a vida fora da corte russa. Usava disfarces para não ser reconhecido, mas, devido a sua altura – e ao fato de sempre viajar com cem criados, seis tocadores de clarins, dois relojoeiros, quatro anões e um macaco -, o disfarce raramente funcionava. Era apaixonado pela cultural ocidental, principalmente a francesa, e construiu São Petersburgo (depois Petrogrado, depois Leningrado, depois São Petersburgo outra vez) para ser uma janela da Rússia para a Europa, e vice-versa. Seu neto, também chamado Pedro, filho da czarina Isabel, casou-se com a alemã Catarina, que pouco depois do marido herdar o trono aliou-se a um amante para derrubá-lo e tornar-se, ela, czarina de toda as Rússias. Pedro viveu o resto dos seus dias na obscuridade e morreu, dizem, de estranhas complicações de uma crise de hemorróides. Catarina, chamada a Grande (apesar da pouca estatura), foi uma soberana progressista e em vez de ir atrás da cultura ocidental no Ocidente, como fez o primeiro Pedro, trouxe-a para São Petersburgo, notadamente na figura do enciclopedista francês Diderot, que, durante dois anos, foi uma espécie de filósofo em residência no palácio Hermitage.

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A importação de Diderot e sua biblioteca para iluminar a corte russa faz parte de uma tradição que começou com o convite feito pela rainha Cristina da Suécia a René Descartes, para que fosse dar uma sacudida na empáfia do seu reino, além de satisfazer a curiosidade intelectual e preencher os vazios da alma da moça, que – mais fofoca histórica – gostava de se vestir de homem e não gostava de tomar banho. Descartes, com sua ideia doida de que o Homem inventara Deus com a razão que Deus lhe dera, foi hostilizado pelos pensadores locais como já tinha sido combatido pela Igreja na França. Escreveu de Estocolmo para um amigo: “Me parece que aqui as ideias congelam, exatamente como a água”. Foi o frio da Suécia que o matou, embora se desconfie que os médicos da corte, inspirados pelo ciúme que ele provocava, tenham ajudado um resfriado a se tornar mortal. No seu livro To The Hermitage (de onde vêm as fofocas acima), o inglês Malcolm Bradbury escreve que em Estocolmo não existe qualquer traço de Descartes. Não se sabe onde ele foi enterrado. Segundo Bradbury, “o criador da metafísica da presença humana, o fundador do grande “sou porque penso”, o profeta da alma moderna, o homem que nos deu a dúvida, a ansiedade, a mente acima da matéria e nos ensinou a questionar, investigar e observar, é notado em Estocolmo apenas pela sua ausência silenciosa”.

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Anos mais tarde, Frederico o Grande (outro) da Prússia também quis ter o seu francês e mandou buscar Voltaire para ser seu interlocutor e consultor literário e legitimizar sua pretensão a rei-filósofo, a ser um legítimo produto do Iluminismo. A visita de Voltaire ao palácio de verão de Sans Souci, perto de Berlim, se estendeu para três anos e foi feliz enquanto durou – ou até Voltaire ser preso a mando do rei quando tentava voltar para casa, acusado de quebra de contrato e corrupção e de ter roubado alguns dos seus poemas eróticos, provavelmente a acusação que mais doeu. Denis Diderot ficou dois anos em São Petersburgo. Seu relacionamento com a czarina e sua corte foi no mínimo pacifica, e a separação foi amigável. Mas é curioso como os três franceses (entre outros, como Rousseau, Condorcet, D’Alembert, que também levaram conselhos franceses a poderosos de outras terras) foram adotados por monarquias absolutas justamente por serem notórios hereges, cuja crítica à ortodoxia religiosa implicava, por tabela, numa crítica a todo poder absolutista, e cujas ideias mais tarde dariam origem às revoluções republicanas. Talvez os monarcas intuíssem que mostras de inquietação intelectual e credenciais progressistas os salvariam da onda racionalista que se aproximava, ou talvez apenas quisessem intelectuais iconoclastas aos seus pés, como animais domados. Mas qual era a razão dos intelectuais para aceitarem os convites? Na época não se recusava em bom patrono, ainda mais um patrono com verbas reais, mas mesmo assim... Já era, então, a questão de hoje, a velha questão dos intelectuais e o poder: como se comportar, como se engajar sem se comprometer, até onde ir ou não ir.

De qualquer maneira, é pouco provável que, em alguma das suas conversas com a czarina, Diderot tenha dito a sua famosa frase, com a qual Descartes e Voltaire certamente concordariam:

- A humanidade só será livre, Alteza, no dia em que o último déspota for enforcado com as tripas do último padre.


Domingo, 12 de novembro de 2006.



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